GATILHO DA GRANDEZA 

Mojubá Exu

“Exu é o Orixá da comunicação, mensageiro dos dois mundos, é a própria linguagem, guardião da energia vital do mundo, e imprescindível em muitos dos rituais da cosmologia e culturas negro-africanas, em especial nos povos Iorubá. Sua manifestação em solo brasileiro permitiu o florescimento das religiões de matriz africana, assim como o fortalecimento identitário na diáspora. Entre os iorubas a noção de tempo é circular, o mito narra o acontecimento, ao mesmo tempo antevê o destino, pois a existência é um contínuo de repetições desses acontecimentos narrados.

 

‘Exu nasceu antes que a própria mãe’, costuma-se dizer nos terreiros. Ele é o movimento que gera a oscilação entre um regime de expansão e um regime de contração, princípio binário presente na estruturação do pensamento em Ifá, que por sua vez, é aquele que foi testemunha dos destinos e é, ao mesmo tempo, um sistema de adivinhação que evoca os 16 tetragramas primordiais que representam as energias presentes na origem do universo. Entre a contração e a expansão, entre o Orum e o Aiyé, está Exu com sua força em movimento, numa deambulação à procura de saciar sua fome, ao mesmo tempo em que atende a toda e qualquer demanda. Está presente em todo ritual, é o mensageiro, é o que conhece todos os segredos de Orunmilá (Ifá), é guardião do axé, isto é, a força vital. Ainda segundo o Ifá todo nascimento, após a Criação, é um renascimento. E na circularidade do tempo na cultura mítica, a manifestação de Exu em solo brasileiro é o renascimento que nos conecta à energia vital da origem.”

NEGO DITO CASCAVEL

Itamar Assumpção: procedimentos que englobam e prolongam a linha da canção critica, a linha evolutiva, mas que também recorrem aos métodos timbres e procedimentos tanto da canção norte-americana como da canção brasileira “profunda”, das músicas relegadas aos escaninhos do nacional popular, do folclore — a umbigada, a embolada… 

 

Esta relação através da qual se estabelece uma diferença valorativa, uma hierarquia que parte de uma valoração da expressão intelectual, relação esta que se dá entre visões e perspectivas da formação cultural brasileira, me parece, carece de uma reavaliação.

 

Porque se investigarmos o que ocorre no Estácio em termos de expressão técnico-política, em termos de consequências para nossas diversas realidades culturais, não tenho dúvida de que o Estácio foi mais expressivo e marcante que 22.  

 

Se compararmos por exemplo a Semana de 22 ao Estácio de Ismael, Bide, Baiaco, Amor, em termos de uma constituição técnica, social, política, dificilmente não se verificará a vivacidade e atualidade de muitos dos preceitos que guiaram o Estácio. Daquele samba que foi elaborado, desenvolvido e plasmado no Largo do Estácio no final dos anos 20, se irradiou toda uma cultura do samba por todo o país que impactaria toda a música subsequente.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que ocorre no Estácio? Um grupo de jovens negros, e alguns brancos e mestiços, criam uma nova forma de compor, uma nova forma de tocar — que divergia da música que era tocada na Tia Ciata e na Rua do Ouvidor e que era, portanto, “crítica” —criam novos instrumentos com a intenção de amplificar o som para que mais pessoas pudessem escutar (o surdo, por exemplo), impactando também definitivamente na sonoridade do samba; desenvolvem uma tecnologia de ocupação do espaço público através do desfile de carnaval — e não temo em afirmar que o negro carioca no início do século criou o espaço-público tal como conhecemos no século XX, através da Cia dos Pretos e do Carnaval da Deixa Falar.

 

Então eu vejo esse registro do Modernismo de Donga, Pixinguinha, João da Bahiana, e, mais tarde, do Estácio como os campos de atividade definidores do que seria a cultura do século XX:  pesquisas próprias, uma relação problemática com a indústria cultural e o mercado nascentes, as apropriações política, a valorização da canção e da apresentação, a luta pelos diretos do fonograma, a estética da canção, mas como que extrapolando as funções exclusivamente estéticas, p ex, do Modernismo antropofágico e seus desdobramentos, o uso da música como ferramenta política, como meio de territorialização e invenção do espaço público. Eu diria que o samba não se profanou nesse processo, se não que este processo de profanação foi justamente o movimento primordial do samba urbano libertando-se das amarras que condenavam as populações negras à irrelevância, e que, recusando o samba dolente da Tia Ciata, politizaram não só a música, mas as ruas.

 

Bem, se essa hipótese tiver algum fôlego, algum sentido,  então perceberemos que há um corte racial no estabelecimento dessa hierarquia da expressão técnica, estética e intelectual, que essa hierarquia hipertrofia as linhas de estudo antropofágicas e atrofia a percepção da atividade técnico-política dos grupamentos negros urbanos do início do século XX. 

 

por que tecnico político? Itamar diz: sou autodidata, pois quem estuda e respeita as técnicas correntes, os dispositivos e suas funções consolidadas, não inventa nada. Eu observo que é a perspectiva simondoniana, a perspectiva do filósofo e mecanólogo francês Gilbert Simondon. Para ele, o objeto técnico utilizado apenas em suas funções consolidadas manifestam uma baixa tecnicidade. Uma alta tecnicidade se abre quando descobrimos novas funções. O que determina a invenção a partir da técnica é o acréscimo de funções ou a criação de novas funções e usos, assim como a repercussão dessas inovações nas práticas e ideias comuns. Novamente, estamos no campo da invenção, elemento central na organização e na afirmação dos “quilombos” urbanos do início do século passado.

 

Eu vejo Itamar mais próximo de Anicide Toledo, do terreiro, do pai que era pai de santo, do rádio do que de Caetano Veloso e Gilberto Gil, a postura crítica de Itamar à sacralidade desses compositores confirma. Então, não seria justo mantê-lo nesse jogo de tentativas de inseri-lo ou não dentro de um panteão que nitidamente não negociou com seu “eu-beleleu”: “O que decorre é que Itamar Assumpção se viu excluído do poderoso círculo da MPB.” Sim, sem duvida. 

 

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GATILHO DA GRANDEZA 

Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu sou poeta do povo
Olorum Ekê
A minha poesia
É de cor de sangue
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Da cor da revolução
Olorum Ekê
Meus avós foram escravos
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu ainda sou escravo
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Os meus filhos não serão
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Ô Mama, Mamakitaia Calunga lungara ê.
O saber de sua ideia era mais que aceno
de aceitar um serviço.
Era sinal, essa uma
elaboração do engenho:
que torce e modifica
o sólido para líquido,
que muda o sentido
da ordem recebida.
Ó Mama, Mama kitaia
Calunga lungara ê.

(Edimilson de Almeida Pereira,

"Nós, os Baianos", 1996) 

Omariô de Jurema

(Barra Mansa/RJ) LIVE DE 50 ANOS

senhora da pluma pesada
vou pedir mais uma vez
que a brisa de sua morada
perdoe o que o filho fez

quando abana as sementes
a terra se abre em flor
vou pedir que então aceite
a morte deste senhor

quando vir a calmaria
que a senhora oferecer
vou viver aqui na areia
pra ensinar homem nascer

na terra serei teu porto
malembê, malembê

(André Capilé)

Diversos autores apontam o povo Xambá ou Tchambá, como povos que habitavam a região ao norte dos Ashanti e limites da Nigéria com Camarões, nos montes Adamaua, vale do rio Benué. Existem várias famílias com esse nome, nos Camarões, tendo inclusive participado nas lutas pela independência daquele país.

No início da década de 1920, o Babalorixá Artur Rosendo Pereira, fugindo da repressão policial às casas de culto Afro-brasileiro, deixa Maceió e passa a morar no Recife. Na capital de Pernambuco, na Rua da Regeneração, no bairro de Água Fria, por volta de 1923, reinicia suas atividades de zelador dos Orixás, segundo os rituais e tradições da Nação Xambá, cujos axés foi buscar na Costa da África, onde permaneceu pôr quatro anos, aprendendo com “Tio Antônio, que vendia panelas no mercado de Dakar, no Senegal”, segundo René Ribeiro. Artur Rosendo iniciou muitos filhos de santo e vários deles abriram terreiro posteriormente. Dentre esses filhos, Maria das Dores da Silva (Maria Oyá), que fez sua iniciação em 1927. Em fevereiro de 1928, Maria Oyá começa a cultuar os Orixás, na Rua do Limão, em Campo Grande , tendo Artur Rosendo como Babalorixá e Iracema (Cema), como Yalorixá, inaugurando seu terreiro em 7 de junho de 1930.

No dia 13 de dezembro de 1932, Maria Oyá termina sua iniciação, com o recebimento das folhas, faca e espada. Ao meio dia, realizou-se o ritual de coroação de Oyá no trono, cerimônia tocante e belíssima, repetida anualmente, pôr Mãe Biu, sucessora de Maria Oyá.

Violenta repressão policial fecha o terreiro em 1938, que manteve o culto aos Orixás, à portas fechadas. Em 1939, falece Maria Oyá. Em 16 de junho de 1950, Mãe Biu (filha de Ogum e Oyá), reabre seu terreiro na estrada do Cumbe, 1012, Santa Clara – Recife, tendo como Babalorixá Manoel Mariano da Silva e Yalorixá Dona Eudóxia, Padrinho Luiz da Guia e Madrinha Dona Severina, esposa de Manoel Mariano. Em 07 de abril de 1951, muda-se para o atual endereço, na antiga Rua Albino Neves de Andrade, hoje Severina Paraíso da Silva, nº 65, no Portão do Gelo, São Benedito – Olinda.

Após 54 anos dirigindo sua casa e mantendo as tradições e rituais da Nação Xambá, Mãe Biu falece aos 78 anos, no dia 27 de janeiro de 1993. Donatila Paraíso do Nascimento, Mãe Tila, iniciada em 1932 por Artur Rosendo, Mãe-pequena da casa desde 1933, sucede Mãe Biu como Yalorixá, tendo como Babalorixá, seu sobrinho (filho de Mãe Biu), Adeildo Paraíso da Silva (Ivo), que continuam preservando as tradições do Terreiro Xambá.

Ao contrário do que afirmam Olga Caciatore e Reginaldo Prandi, o Culto Africano da Nação Xambá, está longe da extinção, pois o Terreiro do Portão do Gelo, em Olinda, mantém-se há mais 70 anos, vivo e atuante, preservando seus ritos e tradições religiosas, que se distinguem das casas de tradição Nagô do Recife. É verdade que, após o falecimento do Babalorixá Arthur Rozendo em 1950, a maioria das Casas Xambá de Pernambuco fundiram-se com as da Nação Nagô, excetuando-se a fundada por Maria Oyá, o axé de Oyá Dopé.

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FOTO RENATA AMARAL

Euclides Menezes Ferreira 

ou Pai Euclides Talabyian 

(1937- 17/08/2015) 

como é mais conhecido,

é (de Oxaguian c/Oxum).

É o babalorixá fundador
e responsável pela Casa

Fanti Ashanti, uma casa

de candomblé da nação Jeje-Nagô fundada em 1954, juntamente com Mãe Isabel (de Xangô com Oxum),
a casa
está localizada no bairro do Cruzeiro do Anil, em São Luís, estado do Maranhão, Brasil.

Mãe Kabeca: história de dedicação e religiosidade!

Casa Fanti Ashanti - Tambor de Crioula de Taboca (2007)

Terreiro do Bogum ou Zoogodô Bogum Malê Rundó está localizado na Ladeira do Bogum, antiga Manoel do Bonfim, no Bairro do Engenho Velho da Federação, em Salvador, Bahia, Brasil. O Terreiro de Bogum, de Nação Jeje, Candomblé de tradição

Jeje Mahin, tem muitas diferenças em relação aos outros terreiros de Salvador. A principal diferença é a língua falada nos rituais. Como explica Jaime Sodré (ogã da casa há 35 anos), no culto dos Voduns do Daomé a língua falada pelos jeje é o éwé, do povo fon, com tradição ligada ao Benim. A maioria dos candomblés baianos é de tradição nagô e utiliza como língua o iorubá.

Além da língua, alguns rituais dos jeje são diferentes. No Terreiro do Bogum não existem Orixás, lá se cultuam os Voduns e recebem outras denominações. Tem alguma semelhança com o Vodou haitiano. Segundo historiadores, foi no local onde está o Bogum que Joaquim Jêje, herói do movimento de insurreição de escravos malês, deixou o bogum (baú) onde estavam os donativos que permitiram a famosa Revolta dos Malês ocorrida em Salvador em janeiro de 1835. Esses escravos sabiam ler e escrever em árabe, tinham grande poder de organização e articulação e pretendiam fundar um "reino africano" em terras brasileiras, mas foram traídos e a "revolução" foi descoberta. O termo "bogum" também pode ser explicado pelo dialeto Gun (dialeto do fon com muitos elementos do iorubá), falado na região de Porto Novo, no Benim, significando "lugar (igbo) dos fon (gun)". A missa em homenagem a São Bartolomeu é feita anualmente há 200 anos, tendo-se tornado uma tradição do Terreiro do Bogum, segundo informações da Fundação Cultural Palmares. As festas anuais começam no dia 1º de janeiro e termina em meados de abril.

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A PALAVRA É UMA FORÇA FUNDAMENTAL E POSSUI UMA ORIGEM DIVINA

A FALA HUMANA

COMO PODER DE CRIAÇÃO

A MAGIA É O CONTROLE

DAS FORÇAS

Terceiro Milênio
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Eu sou o terceiro milênio. Resistência é um conceito ultrapassado. Revolução é tolice. Eu não resisto, eu insisto. Eu não revoluciono, eu invento. A escrita é uma fotografia do saber, não o saber ele-mesmo. O saber é uma luz, uma mágica, uma magia. Engana-se quem acredita na magia como hocus pocus, fetiche ocidental, suspensão da ordem natural. No terreiro a magia é o controle das forças naturais, outra natureza. Tudo o que há no Aiyê, há em Orun. A coletividade dos seres veneráveis, porque sempre estarão conosco. Reúna seus mortos, reconciliem-se. Eu acho graça quando falam em ancestralidade porque eu construo minha ancestralidade no passado, no presente e no futuro, simultânea e diariamente. Eu conto as horas, os minutos e os segundos inventando, cuidando, mantendo em pé, o arco teso, limpando e arrumando, reinventando, protegendo. O verbo não faz sentido sem a carne, a carne não vive sem a visão. Eu domino o transe psico-fisiológico, o transe comunal, as forças da natureza, trabalho com elas para viver os níveis de realidade que nem todo mundo vive. Eu extraio elementos dos meus movimentos com os braços, com as pernas, eu faço belos os meus panos, minhas contas e ainda mais belos meus movimentos. Eu olho, observo. Eu batuco, eu leio, eu fico de marola, eu destruo, eu construo. Não sou engenheiro mas eu construo. Eu não sou professor, mas ensino. Não sou presidente mas governo. Não sou médico mas curo. O Xamã é meu amigo, mas sou outro. Exu é através de mim, eu sou através dele. Eu sou muitas e muitas me são, através de mim, atravessando-me, e eu me sou através delas, e com elas, ao lado delas, através e novamente, não em círculos somente, espalhando-se, contagiando, a beleza. Caos é gás, eu aspiro o gás, eu organizo o caos, eu guardo em meu ventre o gás entrópico da vida, a vida é tudo o que há, a morte é uma ficção. Nós não cansamos de morrer. Eu sou o terceiro milênio. Eu sou Negro Leo. Eu sou Saskia. Eu sou Juçara Marçal. Eu sou o terceiro milênio. Eu sou o terceiro milênio. Eu sou Negro Leo. Eu sou Saskia. Eu sou Juçara Marçal. Eu sou o terceiro milênio. Eu sou André Capilé. Eu sou Carlos

de Assumpção. Eu sou Grace Passô. Eu sou o terceiro milênio. Eu sou Kehinde, sua irmã e sua avó. Eu sou fragmento de travessia e a travessia inteira. Eu sou Atlântica. Eu sou o terceiro milênio. Eu sou Ricardo Aleixo. Eu sou Michelle Mattiuzzi. Eu sou o terceiro milênio. Eu sou Yasmin Thainá. Eu sou Mingo Araújo. Eu sou Bira Presidente. Eu sou Ubirany. Eu sou Sereno. Eu sou o terceiro milênio. Eu sou Marcio Victor. Eu sou Carol dal Farra. Eu sou Salloma Salomão. Eu sou Rennan da Penha. Eu sou Áurea Martins. Eu sou o terceiro milênio. Eu sou Iasmin turbininha. Eu sou Mestre Nico. Eu sou Jhones Silva. Eu sou o terceiro milênio. Eu sou Sueli Carneiro. Eu sou Ana Pi. Eu sou Serginho Meriti. Eu sou o terceiro milênio. Eu sou MC Carol. Eu sou Ludmilla. Eu sou Janaína Refém. Eu sou o terceiro milênio. Eu sou Tantão. Eu sou o terceiro milênio. Eu sou Luizinho do Jêje. Eu sou o Terreiro do Bogum. Eu sou Michel Messer. Eu sou o terceiro milênio. Eu sou Guitinho da Xambá. Eu sou o Terreiro da Xambá. Eu sou a Jurema. Eu sou o terceiro milênio. Eu sou a Iyalorixá Mãe Kabeca. Eu sou a Casa Fanti Ashanti. Eu sou o Terceiro milênio. 

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